Sexta, 1 de Maio 1908
Recebi agora um telegrama insistindo comigo para eu ir esta noite ao Porto assistir à representação dum excerto do «...Amanhã» no Águia d'Ouro.
Não vou. Não suporto o público, quando pateia e muito menos quando aplaude. Haja ou não haja quem me admire — adiante, je m'en fous. Que eu tenha de sofrer-lhes a admiração — isso é que é intolerável.
Isto em mim, afinal, é um orgulho desmedido. Para mim o público é a esfinge com orelhas de burro, e a celebridade — o manjar das vaidades triviais. Tolerar o público — seria colocar-me abaixo de mim mesmo, abaixo do que eu penso de mim mesmo.
Terça, 29 de Setembro 1908
Os amigos... Quem são os amigos? uns sujeitos que às vezes se lembram de sentir por nós, de pensar por nós, de ser virtuosos por nós, de ser práticos por nós e até de duvidar de nós. Mas eu não conheço nada pior do que um amigo! Mas ninguém deve dar a outrém o direito de ser nosso amigo. Dar a alguém o direito de ser nosso amigo é permitir-lhe que nos perturbe o espírito, que nos enxovalhe o espírito, os pensamentos, os sentimentos, as intenções, as palavras... Amigos meus — só eu. Conceder que os outros o sejam é abdicar estupidamente de mim. Para estar tranquilo, em paz connosco, não há como sentir na consciência o direito indestrutível — de mandar os amigos à merda.
Segunda, 19 de Outubro 2008
Vem hoje consultar-me uma rapariga do povo, criatura fina, delicada, com uma certa fidalguia de inteligência e sobretudo do coração. Está tuberculosa, perdida. Daqui a meses aquela figura graciosa e simpática estará destroçada e desfeita. E pregando em mim uns olhos indefinivelmente melancólicos, conta-me a história da sua doença. Aquilo começou por um grande desgosto, desgosto de amor, é claro: um homem seduziu-a e depois abandonou-a. Botou sangue pela boca e desde aí — havia três meses — nunca mais logrou saúde. Não queria, morrer, não por ela que já perdera todo o amor à vida, mas pela mãe que já não podia ganhar o pão de cada dia... E pôs-se a chorar. Penso em alguém... E sofro, sofro, porque não posso chorar também.
manuel laranjeira