Tivesse dado positivo, exigiria junto ao diagnóstico de sífilis o absinto, a loucura, a conspiração, e todo o século XIX. A doença venérea é a verdade física do amor, embora assim não o queiram os românticos – Românticos desconhecem o coração, estranha e escura víscera. O coração sofre verdadeiramente, os românticos aparentemente. As dores do coração são fatos que os românticos tornam representações. Ginecologistas não enjoaram do amor por seu ofício, mas por lerem sonetos. O amor não está imune aos seus exames, suas injeções, ao látex que separa o prazer da ansiedade. O amor bem-sucedido é aquele que falha, que queima intensamente no período de um só fôlego. O amor é um rancor sonâmbulo tateando os objetos invisíveis do passado. O amor que se desola diante da fisiologia não é amor, é farmacologia fantasma. Hegel não entendeu o amor. Kieekegaard sim. O amor é encontrar não só sua riqueza fora de si, mas também sua miséria. Por suas idéias “heréticas”, Spinoza foi esfaqueado na rua por um extremista religioso. Guardou para sempre seu casaco furado e sujo de sangue, para nunca mais esquecer os efeitos da intolerância. O amor é este casaco spinozista, furado e sujo de sangue. O amor é um demônio, explica Diotima; um demônio mediador entre os homens e os deuses. O amor é rico de tudo o que lhe falta; é um mal-entendido que legitima a vida. O amor é o espaço no qual os restos são consumidos; é a pequena gaze que estanca a hemorragia. O amor é um deboche sexual. A alquimia, o tarô, a astrologia, a cabala: o que estes jogos têm em comum é o fato de quererem capturar o amor para prendê-lo na virgindade. Mas, o amor não suporta a virgindade, pois não suporta nem pureza nem especulação. O amor é a conclusão lógica da loucura. O amor é foda. O exame deu negativo. Estou limpo e brilhante como um cadáver.