Ombro a ombro no banheiro masculino da empresa – e não se conversa. Homens sequer cumprimentam-se no banheiro. Há um código velado que legisla sobre um constrangimento. Como árvores acuadas contra o muro. Ouvimos nos corredores as máquinas funcionando. Urinamos lentos, lendo os avisos afixados. Dentro o silêncio é completo. Não trocamos gentilezas, cartas, nem selos no banheiro masculino. O ordenamento existia antes de nós, não nos cabendo modificá-lo ou julgá-lo, apenas cumpri-lo. O espaço não é disputado: é preenchido. As ereções são mal-vistas. A urina é formada por águas de despejo. O sexo sob ação do clorofórmio. Distinguimos os remédios pelo cheiro característico que exalam ao serem expelidos. Entramos no banheiro e cada um se torna um animal que quer sumir dentro da jaula. No ar, a violência suspensa aguarda ser cumprida. Alguns entram para se proteger da chuva, para lerem, apressados, os classificados de massagem. Há “aspas” ao redor de cada ação, mas, nenhuma ação. Existe então um mundo assim, fechado, claustrofóbico, sobre o qual exercemos o vício da preservação. O zíper às pressas puxado a velocidade fotográfica da vergonha. Nada muda neste mundo, só mais homens chegam e se aglomeram, até que às velhas culpas se acrescentem novas. Mas o cheiro se torna pior, o cerco menos voluntário. As mãos à saída nos esquecemos de lavar pelo ímpeto de fugirmos logo dali. Corremos como quem comete erros ortográficos. Nos rins sentimos que as pedras brilham pastilhas sanitárias menores. Urinamos vírgulas, até que o ponto final corte o jato em riste, que cai como um cigarro fumado pela metade. Ombro a ombro constrangidos, em pecado, olhando para baixo, ofendidos pela semelhança. O desprezo com o qual balançamos nossos pênis murchos (a parte mais terrível do ritual). No banheiro, todos os objetos do conhecimento são inúteis. Só nele a melancolia se relaciona com a memória. Tanto que, ao sair de lá, desconhecemos se o mundo continuará existindo ou se terá escoado junto com a urina, rumo ao local onde o acúmulo é um anjo imóvel que parece não suportar o próprio peso. Notem que os azulejos saem vitoriosos do embate com as sombras potentes do luto. O cheiro da vitória, senhores, é de pinho sol. Não apenas urinamos: esgrimamos contra inimigos invisíveis. Lutamos contra a água derramada no curso do tempo. Pois nenhum encanamento deve vazar. Esta urina, que ameaça o sonho das cisternas, é nosso ouro contagiante. Tanto que seguramos nossos pênis como se resistíssemos ao desaparecimento. Sim. Queremos matar àquele que urina ao nosso lado. Mas, no fundo, sabemos fazer parte de uma única fraternidade. Somos homens, mas, até isso está passando. A terrível verdade é que faz tempo deveríamos nos sentar para urinar. Este o nosso destino e responsabilidade. Estreita e um tanto triste a uretra respira a antecâmara da desilusão. Pois homens urinam por onde prefeririam estar gozando. De algum modo sentimos que este naufrágio começou no céu.