04 abril 2012

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Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens
dos anjos? 

o dia clareado recorda-me que não dormi.
os ossos estagnam plúmbeos no interior do corpo cansado,
enquanto as pálpebras, presas por uma membrana de sangue seco,
simulam a obscuridade inexistente.

a Primavera surge abrupta como antecipação do Verão
e o Verão como corvo de densas asas, portador da morte.
resisto eficazmente à dor  sempre que a urgência dos dias me anula o pensamento;
chego a esquecer os rostos lançados ao vazio – ou, pelo menos, a deixar de os sentir.

para lá da memória, o meu reflexo avança negro no espelho velho da sala de jantar.
o medo será sempre mais forte, as reacções tempestuosas,
elaboradas artimanhas que me  permitam permanecer o mais absolutamente só.

sobre os lençóis mornos, a pele lívida expõe as veias carregadas de veneno.
nem os sonhos mais altos que me reservo resistem à fulgência das manhãs.
cubro-me de negro e preparo-me para a viagem:
reservo a existência a um lugar feito de nevoeiro.