Quem se eu gritasse, me
ouviria pois entre as ordens
dos anjos?
o dia clareado recorda-me que não dormi.
os ossos estagnam plúmbeos no interior do corpo
cansado,
enquanto as pálpebras, presas por uma membrana de
sangue seco,
simulam a obscuridade inexistente.
a Primavera surge abrupta como antecipação do Verão
e o Verão como corvo de densas asas, portador da
morte.
resisto eficazmente à dor sempre que a
urgência dos dias me anula o pensamento;
chego a esquecer os rostos lançados ao vazio – ou,
pelo menos, a deixar de os sentir.
para lá da memória, o meu reflexo avança negro no
espelho velho da sala de jantar.
o medo será sempre mais forte, as reacções
tempestuosas,
elaboradas artimanhas que me permitam
permanecer o mais absolutamente só.
sobre os lençóis mornos, a pele lívida expõe as veias carregadas de
veneno.
nem os sonhos mais altos que me reservo resistem à fulgência das
manhãs.
cubro-me de negro e preparo-me para a viagem:
reservo a existência a um lugar feito de nevoeiro.