Dança da Bisavó
Descalça
Pietá Pietá
a minha bisavó passou fome
e a mim
o cálcio da linguagem
alimenta-me os ossos.
Andou descalça até aos dezasseis anos
com a arca do pão fechada a cadeado
fascinada pelo brilho de uma letras
que nunca entendeu
desde miúda sem querer
destapo os miolos pela noite
e assim sinto as tuas tripas a falar-me
como um oráculo
de repente o mundo entra em mim como numa agonia
e sei que a tua fome continua viva:
não conseguiste levá-la contigo
enterrada na tumba do teu estômago.
Não descansa a minha bisavó descalça
está-me a tragar o abismo
como uma aguarela de Turner
estás tu disposta a romper o dia
com uma enxada
na canteira
onde as únicas mãos de mulher são as tuas
e desde que sei tudo isto
vou raivosa e terna pelos caminhos
cravando em mim a verdade como se fosse uma agulha
estou a escrever isto com os teus gravetos
órfã pequena
estou a dar a entender a tua dor entre beliscadelas
tu sabe-lo bem
daí do além
lavo no poço do rio Rubín
as tuas mãos lumpenproletárias
reluzo a tua escoliose como ornamento astral
deixo que a gravidade me pressione as vértebras
e as enrosque à terra no Castro da Roda
pode a tua herança genética
continuar a carregar pedras sobre o meu lombo
até que me derrubem
estou a entrar na fase granítica
reverbero o meu sangue no instante
mais feliz da tua vida
e com o teu tecido celular faço uma saia de flores
para estrear no dia da nossa senhora
como gostarias…querida bisavó:
ando a roer raízes e sonhos sós.
dói-me o ventre e a lucidez leva-me a ver-te
na noite menstrual divina
onde luzem as estrelas que contavas em miúda.
Não descansa a minha bisavó descalça
e agora eu
que tenho a idade dos metais…
sou a remota mente
arranco-me do teu astro a razão
vou aonde me leva o teu tímpano
como uma cigana errante cantando a Maldoror
atiço os cães à tua dor maldigo o trigo negro
que não comeste
que apodreça a raiz do poder que não te deu de comer.
Tantas vezes sentiu a tua epiderme o pânico
tantas vezes tiveste de ir romper o dia
com uma machadada no ar
quantas vezes a tua mãe morta sobre as águas do rio
cantou para que adormecesses
uma ária entre as trutas…
minha ancestral pequena órfã
E mesmo agora
a lua velha arranca a tua porta de batente
morde a tua bisneta com o sílex da madrugada
faço centelhas com a língua
a geada sob os teus pés pequenos
é um pensamento que arrepia
devia aprender a morder
e que
apodreça a raiz do poder
que não te deu de comer.
Atravessa as páginas da minha mente
esta voz invisível que acaso serias tu
deixa que morda como a boa ladra de lume
e fumo e entrego na dança o caroço da alma
porque não descansa
a minha bisavó descalça
não descansa
a minha bisavó descalça.
Olga Novo
(ortigrafado em português por poma fidiró)