De noite um quadro não existe. Nem um espelho, nem eu, tão
pouco. Preciso das duplas realidades. Necessito do dia, desta luz que se quebra
e me reflecte o presente, uma fotografia móvel na qual me tomo por outra que
para mim olha. Se me deixasse arrastar por essa água inventada, se me visse
partir no fundo dessa metáfora, para mais não ser do que um desejo de reflexão,
aí findaria o meu tempo de mulher, o que seria então? Estaria mais próxima da
Crueldade?
A palavra que se esconde na palavra Vida? Veria, eu alguém
lasso, liso, veria eu o tempo do exílio absoluto? Então, veria o “nada” pois
que “nada” sou. É nesta pobre aventura de vidência que devemos procurar as
causas das necessidades que temos dos Outros. É QUE NOS VEMOS NELES.
Na multidão, na rua deserta, num desconhecido, vemos sempre,
mais ou menos, o nosso duplo. Aquele que passa por mim na rua que me quer
falar, que sou eu senão apenas mais um pedaço de momentos que o vai saciar,
entreter das suas metafisicazinhas de deambula dor desesperado, isto é, se eu
lhe desse uma metafísica…porque ele, não quer saber senão das suas vísceras. As
pessoas que vivem das mãos, do corpo, da técnica para trabalhar, não andam em
busca de duplos. Só os lúcidos, os poetas, é que querem meter-se no corpo dos
outros, porque são exilados. E assim estão de partida, sempre de partida.
luisa mota