Em criança escrevia palavras em convulsão mental.
Surpreendia o vazio de silêncio que os outros me condicionavam. Pois, estas
palavras vinham do mais profundo do meu ser, do outro lado de mim, a par do
desejo de logo esquecer, de terminar num certo sabor a nada. As ideias fugidias
têm um determinado prazer acre. Provêm de um outro sentido. Sozinho no acto de
“fazer”, o artista entra na linha ao publicar. A arte acaba por ser um produto
de serie que leva o belo a todas as mesas e o instila na banha dos homens, que
logo irão á procura de outros sortilégios. Talvez dentro de cinquenta anos só
se ouça Beethoven depois de ter sido lido algum artigo num jornal
sensacionalista. Uma reportagem sobre a sua surdez ou a ingratidão do sobrinho.
Beethoven será inaudível. Beethoven será “entendido” electricamente. Música,
essa, já nem sequer se ouve: a música, como todo o resto, alternativa ao
estabelecido, encontra-se fechada em quatro paredes. Lindo! A prostituição não
está apenas nas esquinas das ruas. É um negócio de arte. As putas da “coisa”
artística deviam ir á visita. Se bem, que para os mortos, já não haja visita. E
depois, afinal, também já não custa nada.
Luisa Mota