21 abril 2012

Em criança escrevia palavras em convulsão


Em criança escrevia palavras em convulsão mental. Surpreendia o vazio de silêncio que os outros me condicionavam. Pois, estas palavras vinham do mais profundo do meu ser, do outro lado de mim, a par do desejo de logo esquecer, de terminar num certo sabor a nada. As ideias fugidias têm um determinado prazer acre. Provêm de um outro sentido. Sozinho no acto de “fazer”, o artista entra na linha ao publicar. A arte acaba por ser um produto de serie que leva o belo a todas as mesas e o instila na banha dos homens, que logo irão á procura de outros sortilégios. Talvez dentro de cinquenta anos só se ouça Beethoven depois de ter sido lido algum artigo num jornal sensacionalista. Uma reportagem sobre a sua surdez ou a ingratidão do sobrinho. Beethoven será inaudível. Beethoven será “entendido” electricamente. Música, essa, já nem sequer se ouve: a música, como todo o resto, alternativa ao estabelecido, encontra-se fechada em quatro paredes. Lindo! A prostituição não está apenas nas esquinas das ruas. É um negócio de arte. As putas da “coisa” artística deviam ir á visita. Se bem, que para os mortos, já não haja visita. E depois, afinal, também já não custa nada.

Luisa Mota