Em miúda
quando me perguntavam de que tinha medo
eu sempre respondia:
de parir e do lobo
O lobo veio uma vez
à noite
voltávamos para casa atravessando o monte
o meu pai apontou-o com o dedo ia só
como perdido
esquecido o instinto algures
retrocedida a fome a outra época
nem sequer nos olhou
absorto no seu sangue
na sua cavilação
talvez
a noite evidenciava-lhe em seu pinar
a gangrena da sua espécie
Lembro bem as suas patas espartilhando a geada
o silêncio tenso com que a evolução assistiu a tal cena
a tosca indiferença da coruja do granito
ou da massa do pão
que continuou a levedar as suas moléculas de farinha
atreitos de tal modo à extinção que não repararam um hiato…
Desde aí o meu medo é um guru que uiva na noite
a ti e a ti e a ti
embora me oiçam agora
embora me vejam a falar
pondo a língua no ponto exacto a que obriga a mãe fonética
não sou eu
esta voz
que grunhe
garanto que não sou
eu
este ruído côncavo que as vogais fazem com o sangue
essa terebintina negra em que se me tornou o cuspo ao engolir
maldita seja eu mesma
e a raça que me ensinou a noite como se fosse uma
abreviatura de deus
Agora já sei
de certeza
que as tripas do último lobo me rondam a linguagem
e se algum dia o monte me atravessar para voltar a sua casa
apontarei com o dedo
aqui dentro
onde a voz de mim se apossa como de um réu
Que direi agora
se me perguntarem
de que tenho medo?
Olga Novo
(ortografado em português por Poma Fidiró)