09 abril 2012

A partida é um ensaio da morte


A partida é um ensaio da morte. Quando nós, no fim do cais, com o comboio já a toda a velocidade, perdemos de vista tal ser que agita o lenço-bandeira, sentimos um rasgão, um quebranto na alma, e entramos no coma da ausência, que não passa de uma morte figurada. No enterro do exilado é a exilado que vai á frente. É um morto em pé, artificialmente alimentado, em última instância.

Os portos e as estações são os sítios predilectos de todos os suicidas. São sempre as antecâmaras do nada. Mas também temo dizer que serão também, a hipótese. Será ilusão? Partir não implica distância. Aprendi eu. Partir é imaginação.

O que será preferível? Que estejas a dez mil quilómetros de mim e eu saiba que estás vivo, e te ame, mesmo tendo me tu deixado, por já não me quereres, ou que estejas sub-repticiamente ao meu lado a manter frases mortas, instituído num dicionário de ausências, em que já nem conhecemos a vida que supostamente vivemos? Um exilado não vive no passado, nem sequer na imagem que o presente transmite dele. O exilado é futuro, sempre futuro.

Os filósofos têm um código. É para melhor disfarçarem a sua condição de exilados. A meditação é um portão aberto mas também um beco. No fim da meditação há um compasso de espera, um desejo de volver, de regressar ao mundo. Os grandes solitários trazem em si toda uma geração de recusas a povoarem-lhes as escolhas e percursos da vida, e, se meditam, não regressam ao mundo.

Quando se recusa, algo estanca, e nem o corpo obedece. Recusa-se. Ponto. É na negação que se engendra a obra de arte. Negar as cores, pintar o céu azul de cinzento e ter por nome Gauguin, é o que se chama uma recusa por transmissão. A arte, a liberdade, é uma renúncia. A liberdade apreende-se, não é uma lição dada numa sala de aula. Apreende-se na mão que se larga, apreende-se quando tudo se perde, menos a nossa hipótese de verdade, único estado de graça que existe, liberdade é gritar a verdade perante tudo e perante todos. Liberdade foi sempre fruto da negação. Liberdade é nunca aceitar a definição!

É pura negação. É o combate do estabelecido, a interrogação do limite, o não á evidência. Na realidade, é a única preocupação do Poder. “ O sol ergue-se a leste, certo?’, quem concordar, não me merece qualquer interesse. Eu sou do contra.

luisa mota