A partida é um ensaio da morte. Quando nós, no fim do cais,
com o comboio já a toda a velocidade, perdemos de vista tal ser que agita o
lenço-bandeira, sentimos um rasgão, um quebranto na alma, e entramos no coma da
ausência, que não passa de uma morte figurada. No enterro do exilado é a
exilado que vai á frente. É um morto em pé, artificialmente alimentado, em
última instância.
Os portos e as estações são os sítios predilectos de todos
os suicidas. São sempre as antecâmaras do nada. Mas também temo dizer que serão
também, a hipótese. Será ilusão? Partir não implica distância. Aprendi eu.
Partir é imaginação.
O que será preferível? Que estejas a dez mil quilómetros de
mim e eu saiba que estás vivo, e te ame, mesmo tendo me tu deixado, por já não
me quereres, ou que estejas sub-repticiamente ao meu lado a manter frases
mortas, instituído num dicionário de ausências, em que já nem conhecemos a vida
que supostamente vivemos? Um exilado não vive no passado, nem sequer na imagem
que o presente transmite dele. O exilado é futuro, sempre futuro.
Os filósofos têm um código. É para melhor disfarçarem a sua
condição de exilados. A meditação é um portão aberto mas também um beco. No fim
da meditação há um compasso de espera, um desejo de volver, de regressar ao
mundo. Os grandes solitários trazem em si toda uma geração de recusas a
povoarem-lhes as escolhas e percursos da vida, e, se meditam, não regressam ao
mundo.
Quando se recusa, algo estanca, e nem o corpo obedece.
Recusa-se. Ponto. É na negação que se engendra a obra de arte. Negar as cores,
pintar o céu azul de cinzento e ter por nome Gauguin, é o que se chama uma
recusa por transmissão. A arte, a liberdade, é uma renúncia. A liberdade
apreende-se, não é uma lição dada numa sala de aula. Apreende-se na mão que se
larga, apreende-se quando tudo se perde, menos a nossa hipótese de verdade,
único estado de graça que existe, liberdade é gritar a verdade perante tudo e
perante todos. Liberdade foi sempre fruto da negação. Liberdade é nunca aceitar
a definição!
É pura negação. É o combate do estabelecido, a interrogação
do limite, o não á evidência. Na realidade, é a única preocupação do Poder. “ O
sol ergue-se a leste, certo?’, quem concordar, não me merece qualquer
interesse. Eu sou do contra.
luisa mota