No místico [...] começa por
operar-se um estreitamento da consciência do mundo exterior, compensado
por acrescento intensivo do campo da consciência do mundo interior.
Manuel Laranjeira
A doença da Santidade
proporções óbvias
entre o místico e o louco
se a regra é a de proporcionalidade
então essa é a verdade, o místico é proporcional ao óbvio e o óbvio ao
louco, o que não é proporcional não existe.
uma linha vertical desenhada a meio
do olho, em frente o olhar óbvio, subindo e descendo a linha, o místico
e o louco, incapacitando o caminhar.
o louco corre para dentro, o místico corre para fora, deixando assim o óbvio calmamente no início.
uma nova teoria despede-se da velha
com um aperto de mão e seguem em sentidos contrários. o louco e o
místico despedem-se com as mãos do mesmo corpo e seguem em cruz.
o místico escreveu uma longa carta
ao louco a explicar-lhe que não está sozinho, o louco respondeu, com um
pequeno poema, a explicar ao místico que não está acompanhado.
o óbvio pode ter medo. as coisas
óbvias podem ter medo e disfarçar para não nos assustarem. os planetas
podem ter medo. e se a realidade tem medo de nós - os átomos são mais
loucos e místicos que óbvios.
o louco dança com arcos de óbvios à
cintura. o erro dança com arcos de loucos à cintura. o óbvio dança com
arcos de erros à cintura. a música que ouvem é a mesma. não é mística,
nem louca, nem óbvia.
o místico e o louco acreditam que é óbvio acreditar. o óbvio acredita que é místico e louco acreditar. acreditam.
o louco segue a dança das peças, o místico os quadrados pretos e brancos do tabuleiro, o óbvio as regras. ninguém ganhou ainda.
a lágrima do louco é abandonada à saída, a do místico é lançada para
cima e a do óbvio é disparada em frente. as lágrimas demoram o mesmo
tempo a chegar ao chão.
o místico não utiliza ferramentas, por falta de curiosidade, o louco não
distingue as ferramentas da curiosidade, o óbvio utiliza como
ferramenta a curiosidade, que repete até à exaustão do material.
o louco tem asas, o místico tem asas, o óbvio pode voar.