Para Olga, mãe
Aos vizinhos da Casa de Maripepa.
Que conservam o automóvel onde nasci.
O meu genoma é uma rede de estradas secundárias
que incomunicam a montanha ao vale.
No dia em que nasci não estava nenhum grande sinal
Geava
e a erva deixava-se ruminar no estômago do frio.
Tudo dormia o seu ser tranquilo.
Um astro morria três mil anos antes
mas a ti nem sequer te doeu o ventre
para dar uma luz em movimento
naquele carro humilde do vizinho
fugaz como uma estrela a trinta quilómetros à hora
mais bela
que a Vitoria da Samotrácia.
Não te doeu nada
pela manhã
enquanto vias ferver a mente entre as favas do caldo.
Não te doeu nada
pela tarde
prensavas tojos em cima de uma carroça.
Nem pela noite
alguma coisa te doeu
apenas sentiste que te apertava no ventre uma premonição
era um dia comós’outros
era um dia comós’outros
Pariste com a humildade de um acto de vanguarda
com todo o amor contido na revolução
do motor
e das rodas do destino.
O oxigénio que me faltou ao nascer
brilha entre as flores da batata
tão delicado como o meu sangue novo
e a extensão elétrica dos teus olhos,
mãe
a mim contaram-me
que tinha nascido ao pé do moinho de Rios
na curva da estrada
debaixo da ponte do comboio
ao fim do tempo
mas não se sabia bem
a mim disseram-me
que me ataram o cordão umbilical
com o cordão de um sapato enterrado na lama
e que uma alma coxa me tinha acolhido nos braços
enquanto o volante rodava em direção ao princípio do amor.
Mas nada disto foi assim
Eu nasci de ti
num SIMCA 1200
de cor azul celeste
numa noite de Inverno
da forma mais singela
em cima de uma toalha pobre
quase sem te provocar dor
pequena e silenciosa
como o broto duma pereira
apenas sem ser notada.
A minha mente regressa às vezes
à contração pura daquele momento
encolho-me na memória
e sinto a rosa da adrenalina
abrir-se
acelerar o espasmo
preparar-me o tímpano
bombear-me sangue
sair como um sol da sua placenta
e estar aqui
aqui contigo
pronta
para viver à imagem e semelhança
de mim própria.
Olga Novo
(ortografado em português por poma fidiró)