O escritor é um homem de multidões, assim o exigem; o
escritor compromete-se, segundo a filosofia de hoje. É um comprometido
unilateral. A cogitar na emoção e na generosidade, assina sem saber quem será o
par das suas noites de insónia. Os imperativos são deveras irritantes. Recuso
todo e qualquer compromisso com alguém ou com o que quer que seja. Considero o
compromisso, mais as suas aderências políticas, de uma banalidade demagógica
arrepiante. O escritor, hoje, escreve em “tempo útil”.”Existe” através do seu
patrão e da sua vítima, o leitor, que já não é o hipócrita de Baudelaire, mas o
cliente solicitado, amarrado á montra do editor em voga, a peça de caça das
badanas publicitárias. Levanta-se um leitor como uma lebre e o escritor vê-se
do lado dos batedores, cão anafado, sempre de goela aberta do lado de lá da
montra, do lado da rua. A cultura, essa acumulação de outrem, está na
lavandaria, a ser lavada, engomada, esticada. Metem-na á força no nosso bolso.
Catalogam o saber. E o escritor, espera, no vestíbulo, que toque a sineta, a
chamá-lo para o treino. É silêncio, aquilo que o chama: o silencio das
probabilidades económicas, essa espécie de acaso sonoro que lhe levanta o
olfacto.
luisa mota