21 maio 2012

O escritor é um homem de multidões


O escritor é um homem de multidões, assim o exigem; o escritor compromete-se, segundo a filosofia de hoje. É um comprometido unilateral. A cogitar na emoção e na generosidade, assina sem saber quem será o par das suas noites de insónia. Os imperativos são deveras irritantes. Recuso todo e qualquer compromisso com alguém ou com o que quer que seja. Considero o compromisso, mais as suas aderências políticas, de uma banalidade demagógica arrepiante. O escritor, hoje, escreve em “tempo útil”.”Existe” através do seu patrão e da sua vítima, o leitor, que já não é o hipócrita de Baudelaire, mas o cliente solicitado, amarrado á montra do editor em voga, a peça de caça das badanas publicitárias. Levanta-se um leitor como uma lebre e o escritor vê-se do lado dos batedores, cão anafado, sempre de goela aberta do lado de lá da montra, do lado da rua. A cultura, essa acumulação de outrem, está na lavandaria, a ser lavada, engomada, esticada. Metem-na á força no nosso bolso. Catalogam o saber. E o escritor, espera, no vestíbulo, que toque a sineta, a chamá-lo para o treino. É silêncio, aquilo que o chama: o silencio das probabilidades económicas, essa espécie de acaso sonoro que lhe levanta o olfacto.

luisa mota