22 maio 2012

Pandeirada das três cerejas


Eu oiço as frequências do teu nome
quando nada se pronuncia.

Escuto vozes que não se alçam
mas que caminham descalças em cima da farinha
e vejo virem as suas pegadas do passado
e vejo-as relampadas a olharem-me
como se um fosse um ser remoto do futuro.

Não creio na alma
mas a tua faz ruídos no meu tímpano
barulha dentro das gotas de um balão no meu lugar natal
acorda-me de noite
cantando a plenos pulmões um silêncio tão antigo
que quase me dói a alma em que não creio ao ouvi-lo.

O meu peito é um mocho à espreita
e ao ritmo dos teus passos entrego toda a minha doçura
aos seres errantes
que traficam com ferro e felicidade
à sombra de uma carroça
sem se deterem
sem de deterem sequer
por baixo da minha caixa torácica
para se refugiarem da chuva batendo palmas.

Reconhecem-me os instrumentos de corda como uma deles
eu continuo a atar-me aos feixes guiada por uma mão
que se retorce com o frio no êxtase da artrose.
Olha-me bem
não sou outra senão a pastora de seis anos dialogando com o ar
e três cerejas.
Por isso sou capaz
de ouvir as frequências do teu nome
uma por uma
quando nada se pronuncia
e ainda retumba
no meu peito
a côncava distância do compasso
com que te amo.

O meu peito é um mocho à espreita
olha-me
olha-me bem
que não sou outra senão a pastora de seis anos
dialogando com o ar
e três cerejas.

olga novo