01 junho 2012

O pintor, esse, existe num tubo de tinta.


O poeta mergulhado no homem, até ao pescoço? Rodin, esse estava mergulhado no homem, até às mãos. A escultura é um diálogo. O escultor nunca está só. Ao moldar, o acto de tocar para “fazer”livra-o da verdadeira solidão. Quanto não terá dado Bernini, e em que moeda não o terá pago ele, para “fazer” o êxtase de Santa Teresa? A escultura, arte sexual, é uma manobra a dois. As formas, o rodeio, o sol em obliquo ou o clarão do nascer, os panos de mármore que conferem uma ideia á estética, aquele peso da veste nunca enfiada, aquela figura que se sombreia de uma alegria parada, como um plano de filme que esmiuçasse ao milésimo de segundo, tudo isso participa da exuberância da matéria traída, essa matéria que se tornou viva e se move sobre a luz, essa matéria que fala. O escultor é pai e mãe, ao mesmo tempo. Greda, mármore, pedra. O escritor vive numa maternidade. Transporta matéria humana. Opera dimensão. Faz amor que se pode tocar. Não está sozinho quem quer…                          

O pintor, esse, existe num tubo de tinta. Depois da fotografia e das suas imagens incontroláveis, tornou-se solidário com o espectro. Quando, Van Gogh, em vitoriosa demência, em Arels, sai do seu tubo, corta a orelha. Entre os girassóis e o bordel, há uma alcoviteira: a paleta, essa mulher diáfana! O pintor vive num universo finito. Tudo quanto vê é-lhe estranho. O que julga ver, no exílio do cavalete, é o que o leva a retirar-se do mundo por completo, até que os investidores da historia da arte se apoderem-se dele e o transformem num simples valor imobiliário. Do trágico ao económico, é só o tempo das lágrimas e a reflexão positiva dos markets do belo que violam as moradas solitárias do pintor. 

luisa mota