1
A pêra da luz
A pêra da luz
…dorme em calma meu sangue
dorme em sangue montanha
acendes a pêra da luz
como uma fruta sagrada
toda eu sou uma sonda de leite
levam-me os bacios de zinco
pela manhã
liquida-me
estou a sós com o meu cálcio
acordo a meio da noite
para reunir as enzimas e a música do potássio
está todo o meu corpo a desfazer-se de mim para te ir fazendo a ti
e entretanto
cruza o meu sono uma pomba uma onda
hertziana
penso na formação dos teus tímpanos
oiço-os já a beber no rio
e entretanto
cruza o meu sono uma pomba uma onda
dorme em calma meu sangue
dorme em sangue montanha
2
Ainda
Ainda
Ainda sonho à sombra do miocárdio
Ainda me cheira o coração a lenha
Ainda não sei como será ter-te nos braços
nem como mamarás as minhas vitaminas.
Ainda não me caiu o umbigo ao abismo
Ainda me aparecem os dentes de leite
Ainda não sei como será dormir-te dentro
nem como entrará em ti o gene da minha gente.
Ainda o meu poema é prematuro
e algo em mim luta como o besouro na noite
faz-me bolotas no sangue como antigas papas de milho
e zumbe-me nos ouvidos a lição da vida
está a raiar o dia
no meu caderno de contas
recebo cartas astrais
por debaixo da porta
Ainda ainda
mas o meu diafragma canta às criaturas
e sinto como a borrasca despeja sobre mim
as suas dúvidas.
Anda de gatas a tola mãe eterna
acenderam os arquétipos o carvão da lareira
no côncavo de olga a tua chuva já pinga
não me deixo fugir
quero ver-te dormir
entre os meus braços
ainda
3
Pequena sonata brutal para estrela e trompas de falópio
Pequena sonata brutal para estrela e trompas de falópio
Se uma diminuta estrela berrasse dentro de mim
alguém poderia ouvi-la?
Em que frequência se produz a concepção?
Um botão de sangue
propulsado ao mais profundo da minha estratosfera.
Onde todas as esperanças concentram as suas substâncias
Para me ir dilatando até ao estádio último da intuição.
Para fazer isto que faço converto-me num ser feroz
vou à percussão como quem vai ao rio
amada por um peixe vermelho que me entra pela boca
e me sai pela cobrança dos intestinos.
Sinto-me como aquela planta que ainda não é
e fica assombrada perante a planta selvagem do estrogénio
Estás lume preso
a ti não veio anunciar-te nenhum anjo de pão de ouro
não
há dias que não durmo da cabeça para cima
sou
a puta que te há-de parir
um observatório mundial
estás a balancear-te entre fios de fluxo
e dinamite.
Estás talvez a entrar no bosque da percussão
para poderes latejar um dia
guia
a tua respiração o vento do norte
antes
de se te formarem os pulmões
com folhas de lata e bronze.
Sentada em imã do meu pâncreas observas as estrelas
perguntas-te sobre o sentido da existência
pensas em abandonar o meu ventre
e produzes-me contrações
como se brincasses a fabricar um relâmpago.
Ah para fazer isto que faço
todas as terminações nervosas se apertam até fazerem um ramo
floresço no meio do inverno como uma árvore ácrata
medro por mim a cima até chegar à raiz de algo desconhecido
e aí já só posso entender-me com um pássaro ou com uma pedra
estou a olhar-te por dentro
como se olham as borrascas e os augúrios
para fazer isto que faço
ardo na terra
escrevo ou tenho espasmos
as minhas glândulas estouram
como astros que morreram há mil anos.
Ninguém te pode tocar
mas tu rebentas facilmente uma rima com um forcejo
cantas o silêncio como um tenor faminto
tens o poder da palavra que nunca foi pronunciada
tocas com o espaço onde terás os dedos a verdade subtil do ar
arrancas a minha energia como a uma pedra da pedreira
e entregas-me ao sono como se fosse um dom de tudo o que não se vê.
Aqui tens
não vejo passar as horas e tu fazes-te crescer como o fermento da luz
agora sei que o mínimo é o excesso
que me dominam fúrias que desconheço
que o equinócio do meu cérebro está
em equilíbrio com o eixo imaginário da terra
ninguém te pode tocar
giras entre a beleza do metano
e a comoção de entrever pela vez primeira
uma cereja.
Agarra-te
agarra-te às minhas entranhas
com as tua unhas inexistentes
vou e venho
do silêncio à droga dura
agarra-te à minha montanha sem medo
desce à noite da mulher madura.
Concebe-te
succiona-me a energia
põe a funcionar o teu bocadinho de coração
anda vem
vê-me a tragar barro entre uma estrela
e um deus que sopra nas trompas de falópio.
Ando comunicada comigo mesma
através de claves de alta tensão
que cruzam o meu ventre entre cervos celestes
e tenho a chave que abre todas as fechaduras da noite.
Ainda não és embrião
és só um poema que me faz expelir
em cima da erva uma pedra preciosa.
Ainda não és sequer a palavra que te pode nomear.
Ninguém te pode tocar
ninguém sabe que flutuas no sonho de Gaston Bachelard
que o teu mínimo poder pode derrotar um exército
e de facto assim faz
faz
sem duvidar.
Fazes-me fome
irritas-me a espinha florescem os fungos
as cáries escavam mina nas minhas gengivas e tu
entre quarenta alcoóis bailas a tua dança inocente
vens de onde nem sabes
não sabes nem donde vens.
Rebentam três mil luzes no meu pensamento que só é carne
que só é carne que soa e carne.
Falo com o reverso do paladar a essência da linguagem
não preciso de mais
para te arder dentro
anda o rossio a regar-te como a uma extrema flor epidural.
Tenho os tímpanos furados para te escutar
sabemos calcular a velocidade da luz
mas qual é a velocidade da sombra
essa que vês
sem fazer um ruído sequer
neste emaranhado de tendões e cordas de guitarra?
Espero-te na escada infinita do caracol do ouvido
no castro da alucinação
no final da minha feliz idade
na chuva que cai sobre cada mente em paz
vou amanhecer ao campo contigo dentro
entender-me com cada animal com um único movimento de raciocínio
essa roda astral que arrasta carroças ao meu destino.
Espero-te sentada sobre a pedra que não funda nenhum estado
debaixo onde o grilo se protege da chuva e o escaravelho do sol
agarra-te às minhas entranhas
com as tuas unhas inexistentes
que eu vou e venho
do silêncio à droga dura
agarra-te à minha montanha
e desce sem medo desce
à noite da mulher madura
olga novo