20 junho 2012

um crime negativo


Uma dialéctica do exílio voluntário forçosamente leva às fronteiras do suicídio. Mas depois de Camus, não se fala mais de suicídio. Não é mais “o” problema filosófico. É pura e simplesmente um crime virado do avesso. Um crime negativo. O remorso que de antemão se apodera de mim como uma informação anterior ao acontecimento, deixa me em paz para com esse falso acto de limpeza. O suicídio é um exílio encenado, com tubos de tinta com cartas e em jornais que não mais serão lidos.

Vejo na imagem dos suicídios actuais, a mesma imagem dos “kamikaze”de há anos, disfarçados de tormentosos dramas, um mergulho, á laia de bomba, no seu alvo, um número de “music-hall”. A embriaguez que antecede o grande salto, esse supremo exílio sobre o barril de pólvora, fazem parte das “variedades” do crime, o crime estipulado “praticar”. Acredito sim, na tristeza que rompe da alma de uma manhã de nevoeiro de Novembro, semeada das teias nocturnas das aranhas orbitelas que, como Sísifo, recomeçam noite após noite, as suas dana ides tapeçarias de gaze. A inquietante solidão da natureza, as arvores que se aconchegam umas às outras, abafadas na esperança dos pássaros acossados, um rumo romântico a traçar no céu muito próximo um primeiro sinal de humanidade, as pedras sempre recomeçadas na sua granítica vaidade, tudo isso impele incansavelmente para a morte das coisas, dos actos, de tudo.

Essa morte que é a única a saber, a técnica do exílio: a decomposição.

A PALAVRA, EIS O INIMIGO. Não existe mar, sem a palavra mar.

Luisa Mota