Uma dialéctica do exílio voluntário forçosamente leva às
fronteiras do suicídio. Mas depois de Camus, não se fala mais de suicídio. Não
é mais “o” problema filosófico. É pura e simplesmente um crime virado do
avesso. Um crime negativo. O remorso que de antemão se apodera de mim como uma
informação anterior ao acontecimento, deixa me em paz para com esse falso acto
de limpeza. O suicídio é um exílio encenado, com tubos de tinta com cartas e em
jornais que não mais serão lidos.
Vejo na imagem dos suicídios actuais, a mesma imagem dos
“kamikaze”de há anos, disfarçados de tormentosos dramas, um mergulho, á laia de
bomba, no seu alvo, um número de “music-hall”. A embriaguez que antecede o
grande salto, esse supremo exílio sobre o barril de pólvora, fazem parte das
“variedades” do crime, o crime estipulado “praticar”. Acredito sim, na tristeza
que rompe da alma de uma manhã de nevoeiro de Novembro, semeada das teias
nocturnas das aranhas orbitelas que, como Sísifo, recomeçam noite após noite,
as suas dana ides tapeçarias de gaze. A inquietante solidão da natureza, as
arvores que se aconchegam umas às outras, abafadas na esperança dos pássaros
acossados, um rumo romântico a traçar no céu muito próximo um primeiro sinal de
humanidade, as pedras sempre recomeçadas na sua granítica vaidade, tudo isso
impele incansavelmente para a morte das coisas, dos actos, de tudo.
Essa morte que é a única a saber, a técnica do exílio: a
decomposição.
A PALAVRA, EIS O INIMIGO. Não existe mar, sem a palavra mar.
Luisa Mota