


Continuo costurando, estou me tornando boa em disfarçar os pontos sob a
pele branca. Embora a queloide se estenda por um dos meus braços e eles
apenas dizem que sou geneticamente predisposta a criar dobras sobre a
pele.
Depois da queda, passei duas madrugadas fazendo o enchimento, estofa
velha cheirando a mijo de gato, era necessário disfarçar o oco que me
esvaziava, que comia minha carne, que desgastava minhas cartilagens. Era
preciso parecer que os órgãos ainda estavam lá, que as vértebras ainda
eram móveis, era preciso fingir que os ratos ainda copulavam nos esgotos
gerando homens-simulacros, era preciso fingir que eu era uma dessas
crias, fingir que eu teria orgasmos quando meu clitóris fosse tocado por
uma língua, e quantas vezes precisei mentir que havia um clitóris sobre
minha vulva. Era preciso ser uma boneca cheia, dessas
com glândulas sudoríparas, dessas que têm pálpebras, que abrem e fecham
os olhos e não causam estranhamentos, dessas que quando morrem são
carregadas por formigas famintas, dessas que fedem como cavalos, que
fodem como cadelas, era preciso ser um desses corpos que explodem ovos
de baratas.
Entretanto, é preciso dizer que eu era mulher, feia mas mulher, que a
minha vagina me enjoava e que tive mais poluções noturnas que orgasmos e
todas as minhas fendas causavam mais pavor do que prazer.
Torno mecânico.